Crise pessoal ou Crise profissional?

Tenho pensado muito sobre minha vida ultimamente. É até estranho postar isto no blog, mas como eu me propus a fazer disto aqui um lugar meu, vale tudo mesmo. Algumas pessoas acreditam que o trabalho pode ser dissociado da vida pessoal. Eu, particularmente, acho isso simplesmente impossível. Para mim a vida profissional afeta minha vida particular de forma tão pronunciada que às vezes acho difícil saber o que é uma e o que é outra. 

Pois é, acaba de me ocorrer que certamente não existe vida profissional E vida pessoal. É tudo a mesma coisa mesmo. Minha conclusão parece infantil, certo? Pois bem, talvez não.  

Eu, há muitos anos, tenho tentado viver esta vida dupla. Vez por outra eu passava por uma “crise existencial”, daquelas que dizem que só as mulheres têm uma vez por mês. Em retrospectiva, eu vejo que todas as vezes que me encontrei em uma semi-depressão, ela tinha muito a ver com minha vida-dupla e, em geral, por conta da parte profissional.  

Acredito que todos nós passamos por estes momentos de dúvidas e questionamentos sobre quem somos ou sobre o que vamos ser quando crescer, mas em pouco tempo nos convencemos de que era apenas uma fase e que não podemos reclamar do que temos.  

Se isto não é regra para todos, parar mim o é. Faz anos que tenho estas “crises existenciais” onde passo dias pensando principalmente: “What a hell am I doing in this planet?”  

Mas estas não são as únicas perguntas que passam pela minha cabeça não. Aliás, acredito que devam ter diversos livros de auto-ajuda que falam sobre estas coisas.

Outras perguntas são tão relevantes quanto à anterior, tipo: 

  • O que eu quero para minha vida?
  • Quais meus objetivos a longo prazo? 

Os poucos livros de auto-ajuda que eu li discutiam exatamente estes tópicos. Todos eles traziam uma pequena lista de perguntas que “devemos responder para sermos felizes”. O que nenhum livro diz ou ao menos ajuda é como responder a estas perguntas. 

Este dilema é similar ao dos adolescentes em fase pré-vestibular. Crianças que acabaram de ganhar alguns pelos púbicos devem escolher e decidir o que será da vida delas, e para o resto da vida. O mercado de trabalho hoje praticamente impõe que a escolha que você faz no vestibular deve ser acertada, senão você perde o “timing” do mercado. 

Esta crueldade capitalista nem sempre é resolvida nesta fase. Muitas pessoas terminam ou deixam a faculdade quando se dão conta de que não gostam daquela coisa. Outras se desdobram e aceitam a escolha que fizeram, mas jamais serão realmente realizados no campo profissional. 

Mas tem um terceiro resultado deste processo e acho que eu sou um bom exemplo disto. Desde muito novo comecei a trabalhar: pedreiro, garçon, professor de inglês, estagiário… Sempre saindo de um emprego para outro. 

Eu comecei uma faculdade, biologia, e no segundo ano iniciei outra, gestão ambiental. Não sei bem ao certo porque, mas optei pela gestão ambiental. Atribuo a escolha, em parte ao fato de ser um curso de tecnologia (2 anos), em parte por ter sido o “estado da arte” na área ambiental na época. 

Minha formação foi lapidada por professores apaixonados pela questão ambiental e pelos problemas que a humanidade deverá enfrentar no futuro próximo e eu incorporei estas posturas como jamais imaginaria. 

Infelizmente o mundo não é exatamente o que dizem, não é mesmo? A chamada “revolução ambiental” ou a tese de que a área ambiental será um dos melhores nichos de trabalho do futuro tarda em chegar. Dos meus colegas, fui o primeiro a me empregar na área, o restante, ou desistiu da área, ou está trabalhando quase sem dignidade (salários que mais parecem ajuda de custo do que um salário em si), salvo raríssimas exceções. 

Eu, por outro lado, fui selecionado para uma vaga de estagiário pela Faculdade que cursei e fui rapidamente promovido. Tive a oportunidade de trabalhar com muitos profissionais renomados e antigos professores que, além de muito me ensinarem, também participaram da criação da minha personalidade e postura profissional. 

A empresa que eu trabalho atualmente (desde 2002), a princípio, me recompensou com todos os sonhos que qualquer garoto em início de carreira gostaria. Um bom salário, boas oportunidades de trabalho, bolsas de estudo para cursos (estou terminando o mestrado, após ter finalizado 2 pós-graduações, todas pagas pela empresa onde trabalho), flexibilidade de horário e muita liberdade para criar e desenvolver profissionalmente. 

Contudo, a partir do meu 3º ano na empresa as coisas começaram a mudar. Sucessivas trocas gerenciais, mudanças de políticas corporativas, falta de apoio institucional e aquela sensação de que a área ambiental nas empresas nunca será prioridade, começaram a emergir. Na organização onde trabalho existia um mito de que todos os projetos começados acabam por esquecidos e encerrados antes de seu término previsto. Este mito não existe mais, hoje é uma máxima em que todos acreditam. 

O programa que coordeno é um dos que mais tem durado na história recente da organização e o motivo, em minha opinião, é mais moral do que opção institucional. A empresa ministra diversos cursos na área ambiental e se não tivesse uma iniciativa se quer neste sentido, seria uma incoerência ou até uma imoralidade. Prova disto é que dois anos de descaso gerencial culminaram no quase esquecimento do programa, e apesar dos meus esforços e dos meus colegas, a cada dia a situação fica mais difícil. 

Hoje, após a 6º alteração gerencial em 5 anos, todas as atividades do programa foram “pausadas”. Mesmo as atividades que já estavam consolidadas foram paradas até segunda ordem. Resultado, nem eu consigo me motivar a fazer qualquer coisa (o pouco que restou ou que pinga para fazer), nem consigo motivar minha equipe. As vezes eu passo todas as atividades ä minha equipe, pois eles chegam a dizer que não agüentam mais ficar sem nada para fazer. 

Toda esta volta e retrospecto sobre minha vida têm um propósito, continuar a discussão sobre “crises existenciais”. Portanto voltemos ao assunto principal. 

Notei que as minhas crises foram ficando mais intensas em termos de recorrência e intensidade e hoje sinto que vivo a crise. Esta é a origem da minha discussão e deste texto. Em retrospecto, vejo que as minhas crises anteriores acabavam quando eu me conformava com o status quo da minha vida.   Em outras palavras, estava mesmo é adiando um problema que apareceria no futuro com formas e tamanhos diferentes de quando foram gerados. Parece papo de doido, mas não é não. Notei que quanto mais empurramos os problemas com a barriga, mais intenso e monstruoso ele fica. A barrigada alimenta o monstro! Às vezes o monstro nem era monstro. Era apenas um pequeno “Gremlin” que vai crescendo com o tempo e se tornando um treco enorme e pesado.  Bom, o meu Gremlin já virou Ogro e agora estou passando por momentos difíceis. Minha vida pessoal não poderia estar melhor, tenho uma noiva muito especial, tenho uma família super apoiadora, amigos bacanas, enfim, vai tudo bem. Mas a minha vida profissional está uma lástima. 

Pegadinha, eu mesmo me peguei falando em duas vidas, sendo que é a mesma coisa. Mas o curioso é que eu quase consigo separar uma coisa da outra, acho que me esforço para, depois de sair do trabalho, abstrair que ele existe e fazer de conta que está tudo em ordem. 

O que faz com que esta crise profissional fique ainda mais forte é a ligação intrínseca que minha área de atuação (meio ambiente) tem com meus valores morais e pessoais. Deixar a minha área parece simplesmente impossível em face aos desafios que vamos enfrentar. Eu que tenho um pouco de informação sobre os problemas ambientais, sinto-me com o dever moral de trabalhar com esta questão. Mas isto não é tudo, não é? 

Meu dilema parece insanidade. Tenho um trabalho que paga bem e eu tenho que trabalhar pouco (atualmente, lógico) e sei que da posição e o cargo que estou ocupando não vou mudar não. Por outro lado, não agüento mais ficar parado esperando alguma coisa acontecer. Sinto-me sem perspectivas no meu trabalho atual. Parece que eu parei no tempo e o mundo todo está me ultrapassando depressa. E a cada dia vejo o mundo indo mais rápido e eu indo mais devagar. 

Este sentimento é que tem me corroído ultimamente, e esta é a crise que eu vivo hoje. Não sei responder àquelas perguntas que eu coloquei anteriormente. Juro que já me esforcei pra caramba para tentar responde-las, mas não consigo uma resposta que seja convincente para mim. 

Este sentimento para mim está sendo terrível. Sei que quero que as coisas mudem, porém não sei como muda-las. Tenho duas certezas e um sonho: a primeira certeza é de que eu preciso de mudanças; a segunda certeza é de que estas mudanças se referem à esfera profissional (quero mudar de empresa urgente!); e o meu sonho é o de trabalhar o mais longe possível de uma mesa de escritório. 

Estas são as únicas conclusões que consegui tirar depois de muito pensar, de muitas noites sem dormir e de algumas horas de discussão com a Jú (minha noiva). Porém, não tenho mais nenhuma pista para onde devo seguir. 

Pensando bem, acho que consigo tirar algumas outras conclusões sobre o meu próprio texto, se alguém ler e não concordar, deixe um comentário: 

Conclusões gerais:

  • Nossa vida é uma mistura indissociável do âmbito pessoal, profissional e outros;
  • As crises profissionais são, por natureza, crises pessoais ampliadas;
  • Livros de auto-ajuda não ajudam muito (perguntar é fácil, difícil é dar a resposta);
  • Homens e mulheres possuem crises existenciais;
  • Ganhar bem, mas não se sentir realizado, não é tão agradável quando dizem (felicidade infelizmente não se compra, por mais dinheiro que se tenha);
  • A área ambiental tem crescido, mas não tem gerado tantos postos de trabalho quanto dizem por aí;

Conclusões pessoais: 

  • Preciso de muita introspecção para achar pistas sobre o que quero ser quando crescer;
  • Sem saber o que se quer, não se sabe o que buscar;
  • Ganhar bem é bom, mas se realizar é melhor;
  • Preciso de um novo trabalho que me motive e que me permita experimentar uma nova realidade profissional; 
  • Só lerei outro livro de auto-ajuda se ele oferecer respostas às perguntas que propõe (perguntas eu já tenho o suficiente); 
  • O ditado popular: “A ignorância é uma benção” faz todo o sentido do mundo para mim (experimente estudar os problemas ambientais contemporâneos e tentar dormir sossegado depois);
  • Acho que preciso de alguma ajuda para sair deste enrosco;

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5 Comentários em “Crise pessoal ou Crise profissional?”

  1. Ju Says:

    Eu não estava preocupada até ler a sua Nota! hehehe

  2. Carolzinha Says:

    Foi engraçado ler isso… cheguei a pensar q vc havia lido meus pensamentos, presenciado minhas e postado aqui. É engraçado achamos sempre que essas coisas acontecem só conosco e quando li percebi que até meu velho amigo de muitas risadas na Praia Grande passa por isso.
    Saudades
    Bjos
    Carol – PG


  3. Bom, posso dizer que essas crises são realmente comuns, mas atualmente estou experimentando o momento “Entreguei para Deus” ou “Foda-se” ou qualquer outro nome. Este momento é quando você pára de tentar resolver o que não pode ser resolvido por você……não é desistir, mas conseguir deixar o tempo agir, ontem, estava conversando com um amigo e ele definiu isso como …”deixar a vida se revelar”…e é isso aí, uma etapa de cada vez………ah, e mais uma coisa, uma cervejinha pra devagar sobre isso com os amigos também é muito válido……..afinal, isso é algo que pode ser resolvido….

  4. murillo Says:

    é cara, estou passando por isso, trabalho na área cultural, sou ator, diretor e músico e não sei em qual dessas áreas me dedicar, as coisas ficam divididas e me consome de forma cruel!

  5. Patricia Says:

    Nossa….jamais poderia imaginar que os conflitos pessoais possam ser tão parecidos entre pessoas de mundos tão diferentes….tenho as mesmas dúvidas e angústias, em alguns momentos bastaria mudar algumas palavras e estaria falando de mim….o mais engraçado é que uma dos caminhos que gostaria de seguir seria sair do mundo financeiro e ir para o lado ambiental…e de repente percebo que a “grama do vizinho sempre parece mais verde” e vejo que nem tudo é tão maravilhoso quanto pintam….
    parabéns pelo texto, não melhora muito minhas incertezas, mas dá um certo alívio.


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